

Foi quando resolvi sentar-me à beira da estrada. Já estava cansado de tanto andar e o sol já fazia o suor escorrer pelo rosto. Olhei para esquerda, direita, e nenhum sinal de sombra, qualquer fosse a direção. Deitei-me e pus a mochila sobre o rosto para criar a desejada sombra e tentar amenizar a temperatura, o que de nada adiantou. Levantei quando julguei ter recuperado as forças, mas pouco depois desanimei e, novamente, sentei. Fiquei encolhido, abraçado às pernas pensando em tudo aquilo que vi e se minha escolha fazia algum sentido.
Ouvi uma buzina e levantei a cabeça. Havia um homem ao lado de um carro olhando para mim, que nem havia ouvido o móvel passar na minha frente. Levantei na hora e pensei “Ufa, que bom!” “Vai a algum lugar?” disse o estranho. “Até onde puder me levar.” e entrei no carro. Era um homem já velho de boa aparência que passava pela estrada. Faria uma entrega de sanduíches a uma cidade que disse ser próxima. As caixas da encomenda estavam no banco traseiro. Ofereceu-me e na minha fome acumulada peguei três para comer ali e outros três enfiei dentro da mochila, sem pensar no momento se faria diferença para o freguês dele.
Contei a ele um pouco de uma vida que acabara de inventar e pareceu acreditar. Quando me perguntou a razão de estar ali no meio do nada, calei-me. Dei a última mordida no terceiro sanduíche, mastiguei, engoli, mais calado. Foi o tempo de criar um motivo que encaixasse em minha nova vida. Senti-me engraçado. Naquele momento eu poderia ser quem eu bem quisesse e não haveria julgamentos ou questionamentos sobre quem sou, ou era, ou fui. Mais engraçado foi que a vida que lhe contei nunca havia passado em minha mente, mas acabou servindo para a situação.
Depois de mais conversa e de ouvir mais histórias sobre vida dele, veio um silêncio. Aquele silêncio que te faz pensar e pelo qual eu não queria passar, quem sabe algum dia eu volte a me sentir confortável com ele. Achei que a viagem demorava e perguntei-lhe se seria algum incômodo cochilar ali, ele disse para me sentir à vontade, parecia cansado, o que de fato estava.
Virei-me para a janela, fechei os olhos e logo o sono possuiu minha mente. Que inferno! Por que resolvi dormir justo no carro de um cara que me acolheu tão bem? Não queria precisar passar pelo que passei. Durante meu sono aquelas não saíam da minha cabeça. Eu via aquelas cenas todas por cima. Eu voava. Conseguia voar! E por mais rasantes que eram meus mergulhos, não conseguia alcançar o solo para impedir-me de fazer aquilo. Ouvia gritos ensurdecedores ecoando, mas todos estavam com as bocas costuradas. Por que eu? Por que os escolhi? Se é possível tirar conclusões sonhando, concluí conhecer a essência de um arrependimento.
Acordei desesperado, urrando para o homem parar o carro. Ele me dizia para ter calma, mas eu estava descontrolado. Num ímpeto explosivo abri a porta e me joguei. Rolei alguns metros por uma estrada de terra. Não tinha idéia de onde estava, mas estava dentro de algum tipo de floresta. Nunca mais vi o homem. Nunca mais vi ninguém.Ainda na minha onda de desespero, corri pela mata adentro sem noção alguma de direção.
Corri até não agüentar mais, até me deparar com um penhasco. Olhei aquela imensidão e gritei com o resto de fôlego que me restava, senti as duas últimas batidas do meu coração quebrado, esmigalhado e realizei o sonho que tive. Eu voava. Conseguia voar...
4 comentários:
Two years he walks the earth. No phone, no pool, no pets, no cigarettes. Ultimate freedom. An extremist. An aesthetic voyager whose home is the road. (...) Ten days and nights of freight trains and hitchhiking bring him to the Great White North. No longer to be poisoned by civilization he flees, and walks alone upon the land to become lost in the wild.
O único silêncio que vale a pena é o que te faz pensar, é o silêncio da degustação e da dor.E não tenha dúvida de que as melhores conclusões que podemos tirar sobre qualquer coisa, tiramos dos sonhos.
Amo esse texto, que bom que você resolveu mostrar ele logo.
Não sei nem o que dizer. Na minha humildes opinião, não consegui parar de ler. Parabéns!
Está muito bom mesmo... eu nao ia comentar, mas precisava, precisava mostrar o quanto eu reconheço alguem que escreve bem ! Queria muuuito escrever como voce.. Parabéns !!
Beijos, Tavares.
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