ABC
Abri os olhos. Abasteci meus pulmões. Abandonei minha cama para me encaminhar ao banheiro. Através do espelho a minha cara amassada não se diferenciava dos outros dias. Abomino o fato de não me sentir diferente a cada dia. Agora já estava sentada, tomando meu café da manhã. Abri meu jornal de todo o dia, e numa crônica me deparo com a seguinte frase: “A Bossa Nova é a mesma coisa, uma música easy listening, que toca em loja de departamento quando a gente vai comprar uma meia.” – Alguém disse. Afastei o jornal dos olhos. Absuuuuuuuuuuuurdo! Aborrecida deixei o jornal de lado. Aquilo nunca mais iria se repetir. A partir daquele dia o café da manhã seria presenciado apenas por mim, meu chocolate quente e uma torrada, sem crônicas, sem jornais para me dar angústia. (Agonizei muito? Acho que sim).
Bom, meu dia segue. Babaquice nenhuma me desestruturaria. Baseada na minha agenda, não tenho nada pra fazer até o almoço. Basicamente nada né, mas a gente sempre arruma uma função. Basta ficar em casa que essa função surge, então resolvi caminhar pelo bairro. Botei uma roupa qualquer, e tomei meu rumo. “Bem vindo”, estava escrito na porta de um lugar que sempre fora abandonado na minha esquina. Bastante movimentado, resolvi conhecer. Bem sucedida a idéia. Beleza inesperada me chamou atenção. Brilhava numa mesa uma senhora.
Chapéu, jornal, casaco pesado, e por baixo um vestido aos pés, semelhante a um personagem que tinha sido tirado de outra época e colocado ali na minha frente. Cena que eu jamais vou esquecer. Cadeira, a primeira que eu vi na frente. Como só eu percebia a beleza daquilo? Calmamente, ela afastou o jornal dos olhos enquanto lia uma crônica (provavelmente tinha chegado à citação da Bossa Nova). Certamente minha tarde foi “perdida” ali, admirando aquela mesa. Com a necessidade de guardar aquilo pra sempre, a cena foi registrada na minha memória...
Daí...
- recordar é viver -









