quarta-feira, 22 de setembro de 2010






ABC


Abri os olhos. Abasteci meus pulmões. Abandonei minha cama para me encaminhar ao banheiro. Através do espelho a minha cara amassada não se diferenciava dos outros dias. Abomino o fato de não me sentir diferente a cada dia. Agora já estava sentada, tomando meu café da manhã. Abri meu jornal de todo o dia, e numa crônica me deparo com a seguinte frase: “A Bossa Nova é a mesma coisa, uma música easy listening, que toca em loja de departamento quando a gente vai comprar uma meia.” – Alguém disse. Afastei o jornal dos olhos. Absuuuuuuuuuuuurdo! Aborrecida deixei o jornal de lado. Aquilo nunca mais iria se repetir. A partir daquele dia o café da manhã seria presenciado apenas por mim, meu chocolate quente e uma torrada, sem crônicas, sem jornais para me dar angústia. (Agonizei muito? Acho que sim).
Bom, meu dia segue. Babaquice nenhuma me desestruturaria. Baseada na minha agenda, não tenho nada pra fazer até o almoço. Basicamente nada né, mas a gente sempre arruma uma função. Basta ficar em casa que essa função surge, então resolvi caminhar pelo bairro. Botei uma roupa qualquer, e tomei meu rumo. “Bem vindo”, estava escrito na porta de um lugar que sempre fora abandonado na minha esquina. Bastante movimentado, resolvi conhecer. Bem sucedida a idéia. Beleza inesperada me chamou atenção. Brilhava numa mesa uma senhora.
Chapéu, jornal, casaco pesado, e por baixo um vestido aos pés, semelhante a um personagem que tinha sido tirado de outra época e colocado ali na minha frente. Cena que eu jamais vou esquecer. Cadeira, a primeira que eu vi na frente. Como só eu percebia a beleza daquilo? Calmamente, ela afastou o jornal dos olhos enquanto lia uma crônica (provavelmente tinha chegado à citação da Bossa Nova). Certamente minha tarde foi “perdida” ali, admirando aquela mesa. Com a necessidade de guardar aquilo pra sempre, a cena foi registrada na minha memória...
Daí...

- recordar é viver - 

domingo, 19 de setembro de 2010


Caixa de Sorrisos


O que tens de tão precioso para trazer nesse sorriso? Vê-la assim vivendo e lutando diariamente para o bem estar de todos me dá até vontade de ser perfeita para minimizar este seu trabalho. Ser perfeita e largar essas tolices de pré-adolescente covarde de crescer. E como a falta de coragem não leva ninguém a lugar nenhum, foi pra lá que minha covardia foi.
  A opinião de terceiros não me interessava, e muito menos assustava, e de desinteressantes, passaram a ser inexistentes. Até que te vi assim, sorrindo mas com medo de parecer estúpida, com medo de des/a/parecer por vergonha. Isso me deu ânimo e de imediato as idéias pulsaram dentro de mim, palpitações psicodélicas em tons de verde/verde/verde e com sabor de força.
Veio tudo como uma coisa assustadora, os pequenos espaços de mente em branco foram preenchidos pelo medo da perda. E eu sei que o medo veio por te amar exageradamente, e eu sei que muitas vezes me afogo em meu silêncio, mas você sempre dá um jeito de me salvar com um pouco de sorriso.
O seu sorriso cheio de energia preenche os delírios. Há vida em tudo que você toca, todas as flores desabrocham só por te ver de longe.
Ainda é nova para mim essa coisa de ter que dividir uma fração de você, que eu nem sei se é minha de fato, com todos os outros seres que te conquistam, mas, quanto mais eu reclamo e me afasto, mais o universo traga de mim a sua existência, e isso me faz mal, me deixa culpada, pois, apesar de saber que eu sofrerei ainda mais que você, saber que seu sorriso diminuiu um dente de cada lado dessa sua doce boca...

... já faz a morte ser a melhor saída.


Da força nascente dos frutos nasçamos! Misturai-nos, curai-nos. No mercúrio e no bálsamo, no valsar do vento. Espalhai-nos com as folhas."
(Luis Kiari)


-à irmã descoberta ao viver, ao meu anjo da guarda que  reza e me protege de todo o mal. amém.-

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

       
UM CADERNO DE NOTAS                                            

O que tens de tão precioso para anotar nesse caderno tão ansiosamente? Vê-la escrever assim como faminta de folhas e letras me dá até vontade de colocar também num pedaço de papel as ideias que um dia abandonei. Abandonei não por falta de vontade, mas de incentivo. Pareciam tolices de pré adolescente que com uma caneta hiperbólica desenhava alucinações letradas. E como a falta de coragem não leva ninguém a lugar nenhum foi pra lá que meus devaneios foram. A opinião de terceiros me interessava, mas também assustava, e de ideias passaram a ser vergonhas, e de vergonhas, vagas lembranças... Até que te vi assim, sem medo de parecer estúpida, sem medo de (a)parecer... você. Isso me deu ânimo e de imediato as imagens pulsaram dentro de mim, palpitações aquareladas em tons de verde/mel e com sabor adocicado.
Veio tudo como coisa só, os pequenos espaços de mente em branco foram coloridos pouco a pouco. E eu sei que as cores vieram de você, e eu sei que as vezes pareço me afogar em tanto silêncio, mas você sempre dá um jeito de me salvar com um pouco de som. O seu caderno cheio de notas e acordes coloridos preenchem o vazio. Há música em tudo o que você toca, há música em você e seus sons me guiam. Ainda é nova pra mim essa coisa de ex/impor uma fração de alma que eu nem sei se é minha de fato, mas quanto mais eu ponho pra fora, mais eu sugo pra dentro diferentes versões de mim mesma, e isso me faz bem, me deixa leve e me faz pensar (mesmo que por alguns minutos) que realmente sei quem sou.

sim, caro poeta, não recolha o vento de tua presença
no silêncio frio que anuncia um fim do mundo...”
(Pedro Barnez)

-à irmã separada ao nascer, ao meu anjo da guarda que não reza, mas me protege de todo o mal. amém.-

domingo, 12 de setembro de 2010






Cedo, acordo. Olho o quarto, intacto (como sempre). Aliás, a casa em si. Tomo meu banho de cada dia. Penso na noite que passou, e no dia longo que me aguarda. Saio para o cotidiano. Na hora do almoço estou trabalhando. Na hora do jantar também. Na hora do almoço sou uma de vocês. Na hora do jantar sou uma deles. Na hora do almoço, me visto para atender as mesas. Na hora do jantar, para atender nos carros. No almoço, penso na noite. No jantar, penso na noite. Por aí vai.
Funcionária do mês há 3 meses. Mais tarde, me torno uma exímia, bonita, com o famoso par de seios e um quadril invejável. CARA! Todos param pra conhecer melhor. Mulheres e homens, de todos os gostos e estilos. E como eu gosto de an-dar pelas ruas: me excitar, satisfazer, me cansar, acordar e num estalo partir pra outra.
Fruto de uma mulher que já trabalhou em inferninhos pelo Rio antigo com um cliente sem nome. A genética é boa, e até agora parece estar dando resultado, sem falhas. Quer dizer, daqui a 6 meses nasce, e a realidade pode mudar completamente.
Vou sentir saudades.

sábado, 11 de setembro de 2010



Risco de vida


Você chega.
Não aguentava mais esperar em meio aos meus arrepios.
A cama nos chama.
Um beijo, um silêncio, um calafrio.
Preciso de mais, quero mais.
O bater vagaroso que aumenta conforme o ritmo.
O bater exagerado que quebra o silêncio.
Suspiro.
Preciso de mais, quero mais.
Pego tua mão e junto ao meu sexo.
Te sinto como parte de mim, em mim.
Quanto mais faz, mais desejo.
Desejo insaciável.
Preciso de mais, quero mais.
Sinto o suor correndo em nossos corpos que agora já são apenas um.
Nosso ritmo me contagia.
O ar presente no quarto se torna insuficiente .
Preciso de mais, quero mais.
Preciso de mais, quero mais.
Preciso de mais, tenho mais.
Tremo.
Não enxergo mais.
Provo do veneno mais amargo.
Me satisfaço.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


           Entraram no elevador, e já entre os amassos conseguiram acertar o botão do vigésimo primeiro andar. O fato de estarem onde estavam tornava a atmosfera interessante a ponto da necessidade de estourar os botões da camiseta dele enquanto ele beijava seu pescoço, fazendo-a sentir um arrepio intenso subindo a espinha até a nuca. Com o zíper aberto e o vestido levantado, as mãos vão de encontro aos sexos enquanto ela arranha as costas dele. Mais arrepios. Os corpos se unem. À medida que o elevador vai subindo, a intensidade dos beijos e do tato aumenta. Ela entrega-se de olhos fechados a ele. Ele lhe impõe uma força que a faz sentir-se confortável e suave. Juntos alcançam uma altura superior aos 21 andares. Um fato inesperado antes do clímax desejado. O elevador para... no décimo sexto andar.

terça-feira, 7 de setembro de 2010



                                                                        TATO


Um toque de destino.
Destinos entrelaçados
entre olhares, pernas, braços e bocas,
que sussurram os mais belos sons do mundo
no silêncio ensurdecedor de quatro paredes.
A chama da vela é aquecida pelo calor dos corpos
dilacerantemente dilatados e contraídos
num só
corpo
num só
arrepio
num só

Toque.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010



"Dia das Mães, Dias dos Pais, Dia das Crianças, Dia dos Namorados. Em meio a tantas datas comemorativas, por que não criarmos um dia em homenagem àquilo que deu origem a tudo: o sexo."

sexta-feira, 3 de setembro de 2010



... ... ...


Vida,
Roda
Volta
Vira
Para e cansa.
Pausa!
Uns minutos de silêncio.
Já chega.
Corro
Luto
Tento
Faço
Erro e canso.
Para!
Uns minutos de sono.
Já basta.
Canto
Pinto
Ouço
Danço
Toco.
Anseio...
Meu suor chega a molhar a manga daquela blusa que minha mãe costumava usar em seus tempos de hippie.
Aplausos
Sorrisos
Vejo meu pai no meio da platéia.
Não falava com ele a 13 anos: queria que eu fosse médica.
Vejo ele me aplaudindo.
Limpo o suor do meu rosto.
Me engano, não era ele
Era apenas meu desejo.