sábado, 23 de outubro de 2010



Contador


La estava eu: três e meia da manha, num banco de uma das varias áreas decadentes da cidade. Tinha acabado de comprar meu café, e estava acabando de fumar o ultimo cigarro que me restara após uma noite interessante.
Resolvi lembrar de tudo, antes que a evaporação do álcool levasse consigo minhas memórias.
Lembrei que no inicio da noite estava saindo de casa com certeza de que aquelas horas seriam só mais algumas horas passadas em minha vida.
Havia me enganado.
Andando pela rua encontrei um bêbado e, ao seu lado, um pedaço de
papelão escrito: "Já trabalhei, mas agora preciso de sua ajuda. Me entenda, podia ser você."
Acho que a única coisa que ele queria era que não pensassem: "mais um vagabundo por aí!"
Me interessei por ele e resolvi perguntar o que fazia antes de ser... bêbado.
Apenas uma palavra: contador.
Aquilo ficou em minha mente a noite inteira.
A cada copo de cerveja que bebia aquilo só aumentava.
Boemiei, bebi, dancei, bebi, fumei, bebi, bebi... fui expulso!
Já era tarde, mas não podia chegar em casa daquele jeito.
Resolvi parar em uma padaria e comprar um café.
Estava muito quente.
Precisava de um local para esperar ele esfriar e para o tempo dar conta de mim.
Avistei um banco, e aqui estou eu sentado.
Lembrei do bêbado e uma sensação nostálgica tomou conta de mim.
Meu café acabou. A fumaça expelida após ultimo trago já havia se dissipado pelo ar.
Decidi que já era hora de ir para casa. Levantei do banco, andei até o final da rua e virei em direção ao leste.
Uma ambulância estava parada e os médicos levavam um ser que não me era estranho. Observei a cena com todos os detalhes e esperei ela partir.
Se foi... Andei até o local exato e me deparei com uma caixa de papelão encostada na porta de uma loja.
Nela estava escrito: "para você"
Achei aquilo estranho, mas, já sabia que aquela não era uma noite comum.
Abri.
Me deparei com uma garrafa de cachaça e um papel. Olhei para este e o peguei.
Abri.
Li: "Viva sua vida, seus sonhos. Não acabe como eu, deixe suas dores para lá, seja feliz..."
Não agüentava mais. Parei de ler. Amassei o papel e guardei em minha calça.
Precisava chegar logo em casa. Um sentimento indomável me possuía.
Andei sem parar e finalmente cheguei.
Assim como vocês, eu jurava que o bilhete era do bêbado, mas, ao terminar de ler, me surpreendi.
"Com muito carinho e preocupação, apesar de tudo, seu pai, um ex contra dor, um atual bêbado prestes a morrer."
A ultima coisa de que me lembro dessa noite, é uma lagrima pingando no copo de cachaça que tinha acabado de encher e a mão de minha mãe, que já a algum tempo se sentia só, em meu ombro.

4 comentários:

Anônimo disse...

foda ! me amarro nos textos de vcs !

Anônimo disse...

foda ! me amarro nos textos de vcs !

tt disse...

eu lembro qd vc ficou indignada com a formação do "contador"! geeeeenius

Thais disse...

Opa, passei aqui para agradecer ao comentário, e acabei adorando essa postagem. Parabéns! E sinta-se a vontade lá no blog.. (;