sexta-feira, 16 de julho de 2010



            Eu cresci. Não acho que tenha me tornado tudo isso que você, com olhos de mel, vê em mim. Tenho consciência do ser humano que fui, sou e que você me tornou. Você em seus monólogos me contava as pressões e as aflições que o mundo me imporia pro resto da vida. Sem me dar a chance de opinar, me impôs você mesma a minha primeira angústia. Não me queixo disso. Você me fez ser forte, mas ao mesmo tempo me distanciou.

           Eu sei, não foi algo planejado. Tentando fazer de mim um novo projeto de você (que teria que dar certo de qualquer maneira) você se atropelou e me atropelou. Esqueceu que nem eu, nem ninguém no mundo pode concertar seus erros, aproveitar suas oportunidades, viver a vida que você queria ter vivido.
           Quanto a nossa última conversa não me arrependo de nada que tenha te dito, mesmo que te tenha feito sofrer. Sua fragilidade nunca fez de mim superior, você ser sensível só me deixa orgulhosa e cada vez mais me convenço de que as palavras ditas por mim não poderiam ter sido melhores. Não me entenda mal, jamais quero te ver infeliz, quero apenas que entenda e respeite meu espaço. Para uma mãe, é triste a distância de sua filha. Uma filha pela qual você sempre buscou dar seu melhor. Eu reconheço essa sua virtude, seu mal foi se perder numa busca inquieta por algo que nunca poderia ser meu: a sua vida. Mesmo assim te amo, te amo e te perdôo. Na verdade a culpa não te pertence, ela vem de muito antes. Não te devo perdão.
Adeus.
De mim.

Post Scriptum:   "Nasceste para o Sol; és mocidade
                           Em plena floração, fruto sem dano
                           Rosa que enfloreceu, ano por ano
                           Para uma esplêndida maioridade."
                                                       (Soneto da maioridade- Vinicius de Moraes)
                      

2 comentários:

Sua mãe disse...

É estranho o jeito que a minha própria filha fala de mim. Parece que eu te construi, pedacinho por pedacinho, quando a maior poetisa dos seus próprios versos sempre foi você mesma. Eu te suportei, quer dizer, eu te dei suporte. Deixei você se apoiar em mim quando precisou, e quando se negou pro mundo, eu estava lá, insistindo pra você voltar e aterrissar. A partir de um marco, você fluiu com aquelas suas pernas que me referi. E com elas foi. Eu até confesso que no início tentei me manter poucos metros afastada. Só que o tempo foi multiplicando esse espaço, e te levando praí (onde eu nunca vou poder chegar). E depois do investimento do meu amor, você veio me dizer que inevitável é a distancia de uma mãe com sua filha? Pois acho a nossa muito exagerada, extremamente exagerada. Se se sente satisfeita do jeito que está, não terá minhas súplicas de revolta. Foi a última vez que atropelei meu orgullho pra te tentar de volta. E, não muito diferente de sempre, discordo da sua mania de se desacreditar de mim. Seu futuro já foi meu um dia, eu tentei direcioná-la, só que te criei insistente e persistente demais. Você rumou como quis. Nós duas sabemos que o contentamento, que o caminho que você escolheu lhe proporcionou, poderia ter sido absurdamente maior. Mas a teimosia sempre esteve lá pra te acompanhar. Enfim, não vou ficar lamentando o que restou de você em mim. O perdão é recíproco.

Marina Romano disse...

Na minha concepção é aquela coisa básica de ter filhos: você quer uma coisinha parecida com você, que tenha todos seus ideais e faça o que você queria ter feito e não fez.
Conclusão: todos que fazem pensando nisso dá bosta alguma hora da vida... seja lá uma criança revoltada, um adolescente drogado, ou um idoso deprimido.
É isso. Parabéns.